sábado, 6 de junho de 2009

Rotativa barata

Caros leitores!
Sou a mais nova escritora a fazer parte do
blog Sindicato dos Escritores Baratos! Esse nome podia ser melhor? A Rotativa já está pensando em novos contos alternativos baratos!
Nos vemos por lá também?
Inté.


Mais de três anos

Escondida no armário, Maria Luisa respirava fundo e lembrava. Como é que a saudade podia bater desse jeito depois de mais de três anos. Queria sumir porque voltar atrás não sabia. A escuridão de roupas penduradas dançava sobre sua cabeça, vestidos que ela vestia para ele tirar tão rápido, riam da sua lembrança tardia. Por que agora, Maria Luisa? Calado na quarta gaveta, o sentimento havia resistido, até cair no chão quando ela puxou, distraída, um cachecol lilás, e ficou estendido no meio do quarto. Daniel está aqui. Mas Daniel doía. Daniel doeu desde o primeiro encontro até a última briga, a mala feita em poucos minutos no último dia. Adeus. Agora, Daniel está aqui. E ele ria da ideia de Maria, que queria esquecer os últimos três anos. Onde você esteve, Maria? Para reviver o cadáver, ela tateou a prateleira até encontrar suas fitas - era uma para cada ano de casamento. Lá estaria a resposta que Daniel queria, o sentido do amor que tinha morrido. Mas quanto mais fitas escutava, ela mais chorava, e ele pouco se convencia. Você foi embora, Maria. Perdi tudo que eu queria. E Daniel não estava mais lá.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Carolina heroína

Registrada no espelho, a doença deu um senso de revolta à mansa Carolina. A cicatriz risonha e ridícula denunciava que ali havia passado a faca. Ela, que se curou do câncer, não teve a alma tratada por remédio algum.

Ficou na porta do hospital à espera de uma droga para o coração baleado. - Você agora está curada, Carolina, vida normal. Você não vai morrer disso. - Mas doutor, eu já morri um pouco. Talvez precise mesmo é de um outro nome, e de alguma coisa para cobrir essa marca que não é minha.

E Carolina, heroína, andou sem destino. Desatino. A passagem do tempo era ensurdecedora e ninguém mais ouvia.

Os outros, longe. Você está aliviada?

Difícil se convencer da cura; tentar convencer as pessoas da dor que tinha visto, da morte com cheiro e nome. Se olhassem para você medindo as palavras para dizer um prognóstico de anos, quantos anos seriam suficientes para ficar aliviado? Cinco é pouco. Mas cinquenta bastariam? Uma dose diária de censura. Morte, na mesa, não...

Era o fim da marionete dos outros, tão convincente ela tinha sido. Condição precária a da pessoa que vê algo sozinha. Esta era a condição de Carolina.

Talvez Fernando entendesse. Mas o que entenderia Fernando dela, feita agora parte mulher parte monstro? A necessidade de um olhar-espelho para se reconhecer como si mesma. Mas qual Carolina era ela agora?



terça-feira, 26 de maio de 2009

Rotativa para o mundo

Quem tiver curiosidade de ver textos da Rotativa traduzidos para o castelhano, é só entrar no blog argentino http://brevesnotanbreves.blogspot.com/. O conto Chuva já está lá!

terça-feira, 31 de março de 2009

Mergulho

Sentada sob o mormaço incômodo, Alice esperava. A praia estava quase vazia, apenas uns poucos turistas bebiam cerveja e conversavam alto. Um deles passou encarando e reparou que ela cavava um buraco com a perna direita, agitada. Alice olhou de volta, com uma cara feia, e interrompeu o movimento. Levantou-se da cadeira, como vinha fazendo a cada cinco minutos, entrou na água até a altura dos joelhos e xingou uma onda que molhou seu vestido. Pescoço esticado, ficou nas pontas dos pés para enxergar mais longe. E nada.

Sentou-se de novo. E de novo. Até que finalmente Otávio veio andando em sua direção, espalhando mais areia do que o necessário.

- Puta merda! – gritou Alice.

- O que foi? – respondeu Otávio, assustado, olhando para os lados.

- Onde você estava? Você sumiu, eu achei que você tinha se afogado! Sabe há quanto tempo você está no mar?

- Não sei direito – respondeu timidamente.

- Mais de duas horas!

- Nossa, tudo isso?

- Tudo isso.

Bicuda, Alice se calou para secar lágrimas de nervoso e soltou um solucinho.

- Ai meu amor, vem aqui – disse Otávio, aliviado.

Tentou abraçá-la, com uma expressão contente; vê-la daquele jeito, desesperada, era uma prova de amor e tanto. Que bonitinha.

- Vem aqui nada – ela gritou, se recompondo. Você nem para pensar que eu poderia ficar preocupada! Estou aqui morrendo de nervoso! Tive até que pedir ajuda desses meninos para tentar te encontrar! Ai que vergonha!

- É que eu fui um pouco mais para o lado, no sentido da outra praia aqui.

- Fazer o que lá?

- Estava vendo os peixinhos, nossa, vi cada um grandão, assim meio listrados!

- Que ótimo. Fico feliz que você tenha visto vários peixinhos enquanto eu imaginava aqui como ia contar para a sua mãe que o filho único dela morreu afogado na minha frente! Simplesmente sumiu, desapareceu!

- Como assim? Você ficou pensando no que ia dizer pra minha mãe? Nem ficou triste por você, por mim? Aliás – disse, olhando para baixo, sério - se você ficou tão preocupada... Cadê a polícia? E os bombeiros?

- Não tive nem tempo de pensar nisso! Pedi ajuda para os meninos... – defendeu-se Alice, gaguejando.

- Ah que beleza! Você acha que esses moleques iam resolver alguma coisa?

- Mas eles sabem nad...

- E você ia ficar esperando até quando? Hein?

Alice voltou a fazer cara de choro.

- Maravilha! Se dependesse de você... Eu tinha morrido afogado!

- Imagina, meu amor, vem cá – disse, se aproximando.

- Vem cá coisa nenhuma!

E Otávio voltou para o mar, ofendidíssimo.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Manuscritos de Isabela

O último cigarro não chega nunca, mas bem que eu tento. A última foda, essa faz tempo, e eu tento o contrário. Engraçado pensar nas últimas vezes das coisas. O dia, o último dia, pensando bem, não chega nunca porque quando alguém percebe que aquele dia é o último então já não existe dia nem razão para contar coisa alguma. Mas mesmo sem existir o último dia, ninguém gosta de pensar nele. E quando alguém fica assim doente, com uma doença de nome bem feio, a gente se assusta e pensa baixinho, isso é coisa sua, não é minha não, graças a Deus, estou ótimo e isso é o certo. E então já muda logo de assunto, vai dizendo de algo bem bobo, que é pra não pensar no último almoço. Sorriso. Beijo de língua. Espreguiço. Passeio de bicicleta. Todas essas coisas boas que a gente pensa que nem dá valor, mas dá. Antes eu também pensava que isso tudo era meu – a vida toda, bem longa. Uma velhinha descansada e feliz, mas bem velhinha para só então morrer. Depois eu vi que não é assim não, nem sempre. Deu até um pouco de raiva de quem não percebeu; raiva ou inveja porque é gostoso pensar assim, que a gente está garantido, mesmo sendo mentira. Vai dizer isso por aí. Não quero falar disso não, moça; é pecado falar de morte.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A Estrangeira

Francisca estava de pé junto à porta da sua antiga casa, cenho franzido, a observar o movimento do povoado espanhol que abandonara havia tantos anos que mal podia contar. Naquela rua, as fachadas seguiam iguais, com exceção de algumas cores novas nas paredes e nas venezianas que pendiam por fora das janelas. Tudo o mais parecia intocado. Da casa em frente podia ouvir o murmúrio da família que almoçava na mesa junto à janela, enquanto um jovem desconhecido caminhava pela rua sob o sol escaldante. Lentamente, Francisca deu três ou quatro passos e se afastou da porta para observar seu sobrado, pintado de verde, com duas janelas e uma porta muito ampla.

De lá podia enxergar o ir e vir de pessoas dentro de um dos quartos. Eram seus irmãos, em pleno estado de agitação, conversando com a atual dona da casa, Adela, íntima da família e das demais – e poucas – famílias da cidade.

- Aqui dormiam Francisca e o marido. Neste quarto – explicava Vicente.

- Não, não, está louco. Este era o quarto das meninas! Lembro-me perfeitamente – dizia Juan quase exaltado, com a autoridade de irmão mais velho, enquanto caminhava inquieto, em busca de evidências.

- Estou dizendo que elas dormiam no menor, aqui ao lado – rebateu o outro, carrancudo.

Adela rezava para que mudassem de assunto. Não gostava de imaginar que outros haviam vivido ali e estava cansada de ouvir as memórias daquela família a respeito da sua casa; não parecia direito.

Antes que um deles pusesse a cabeça pela janela para questioná-la e vencer a discussão, Francisca precipitou-se pela rua abaixo, no sentido oposto ao que tinha vindo o rapaz desconhecido. Um pequeno sorriso, meio de lado, rompeu sua expressão séria. Todas as mudanças que notara nos rostos maltratados dos irmãos não tinham afetado em nada o seu ânimo para discussões inúteis.

- Continuam os mesmos, exatamente os mesmos - concluiu para si mesma, ainda risonha.

Seguiu seu caminho pelas ruas tranqüilas tentando absorver o lugar com os olhos. Antes de fazer qualquer visita, tinha a secreta esperança de ser reconhecida por algum velho amigo, que conversaria sobre um assunto trivial. Era isso o que mais lhe fazia falta no Brasil – sentir-se parte de algo. Estava farta de ser estrangeira.

Dirigiu-se à praça onde havia um bonito jardim, uma escola e uma grande fonte onde as mulheres lavavam as roupas desde sempre. Lá estavam jovens mulheres sentadas em bancos, com algumas crianças em volta. A escola e as árvores mantinham o seu ar solene, mas ela notou que a fonte havia se tornado um mero objeto decorativo, o que lhe pareceu natural. Seguiu até a alameda principal, mais ampla, cheia de comércio e restaurantes. Ao fundo, viu a periferia que havia se formado, com vários edifícios, em torno do povoado.

Seguiu decidida pela calçada da esquerda, onde ficava a marcenaria fundada pelo seu marido, sogro e cunhados, mas seu passo foi ficando mais lento enquanto ela procurava a portinhola perdida entre tantas portas estranhas. Quase nada naquilo era familiar. Traída pelo tempo, teve de recorrer à imaginação para precisar o exato local da marcenaria, que havia se transformado em uma loja de seguros. Olhou para as pessoas que trabalhavam diante de computadores mas não conseguiu reconstruir seu aspecto original com a perfeição com que havia refeito sua casa.

Sem o mesmo brilho, a caminhada seguiu pelas ruas sinuosas; mal se podia andar pelas calçadas estreitas. Teve vontade de conversar com sua única amiga, uma senhora húngara que vivia no mesmo bairro que ela no Brasil, mas agora estavam separadas por um oceano inteiro.

Tendo observado sua cidade, foi ao encontro dos irmãos, um tanto aliviada, mas confusa. Estava finalmente de volta, mas não se sentia em nada parecida ao que era antes de partir. Sua nacionalidade havia se perdido, em algum momento, na travessia entre os dois continentes; ambos eram ponto de partida e destino. Apenas um passante, ao olhar para Francisca, havia reconhecido seu rosto de longe, mas não se dirigiu a ela, comentando baixinho que aquela senhora que ia por ali era uma brasileira.